Pular para o conteúdo
Home » A vontade como impulso para o imaginário no trabalho com as mãos

A vontade como impulso para o imaginário no trabalho com as mãos

A obra de Bachelard transparece conceitos que vibram novos em nosso pensamento, que pintam cores diferentes na tela da ciência e da compreensão do imaginário, da articulação das relações na vida.

O pensamento científico passa a ser definido como possibilidade, ou ainda, como necessidade de desconfiar completamente das primeiras observações e anotações sobre o objeto estudado. Os objetos por sí só passam a ser definidos exclusivamente pelo imaginário de cada um, aplicando olhares diferentes, cada interlocutor produz internamente e externamente resultados diferentes, imagens diferentes, saberes diferentes sobre o mesmo objeto. Em melhores termos:

“A imaginação é uma força psíquica que escapa à mecanicidade do mundo físico. Ela não está sujeita à inércia da matéria; pelo contrário, é ela quem dá à matéria uma nova direção, um novo impulso.” (Bachelard – A Terra e os Devaneios da Vontade)

A proposta de trabalho da chamada “marcenaria” (que em verdade são diversos trabalhos manuais que utilizam muitos elementos naturais) é, de acordo com o imaginário do educador, uma intenção, uma direção da vontade no sentido de criar condições para o amadurecimento intelectual, físico e psíquico das crianças.

Prepará-las para a próxima fase da vida. Tal a intenção.

No entanto, no simples movimento de lixar um coco verificamos a ação de forças internas muito diversas nas diferentes crianças. Uns se submetem ao trabalho pelo respeito que o educador lhes induz, outros pela vontade de participar do grupo dos grandes (como eles mesmo chamam), outros pela vontade de transformar o material, etc. E assim, utilizam suas forças internas para criar/imaginar meios de permanecer firmes, fortalecidos e posicionados no grupo mesmo que sejam por vezes ainda pouco hábeis com as mãos ou lhes falte força ou destreza ou ainda o trabalho seja desinteressante porque maçante e moroso. Ainda outros tratam de desenvolver-se rapidamente para atender à imagem que fazem de si próprios, que lhes mostra uma potência sem tamanho, uma capacidade inacabável para superar os desgostos das repetições e/ou os desafios corporais. E assim vão até o fim, cada um com sua vontade impulsionada pela força de seu próprio imaginário, vislumbrando formas e possibilidades para finalizar o trabalho.’

SOBRE O QUE VÊS

Quando a ciência dita as regras
Quando meu olhar atento sabe o que vê
Desconfio, esvazio, desacredito

Quando minha mente deduz
E em definitivo conclui
Do óbvio, faz o incerto

Quando a matéria se apresenta
Solicitando movimento e energia
Certa e concreta
Enxergo além, o átomo, a emoção, o éter

Na incerteza que paira sobre o falso saber
Sinto que o mundo é incerto, porém verdadeiro
Noto que o que vejo não é só isso

O que concluo é ainda muito pouco
E reflito nas possibilidades
De ousar meu potencial em caminhos novos
Novas descobertas, formas e saberes
Novas imaginações sobre o mesmo

E assim
Talvez um dia possa ver mais certo
Concluir com firmeza na incerteza
De compreender com a realidade
Para transformá-la em pura beleza

Ainda o mesmo autor propõe que nossas manifestações no mundo material derivam sempre de uma força imaginativa que nos coloca a par do que somos (ou acreditamos ser), e do que podemos, do nosso potencial.

Na relação com a materialidade descobrimos e imaginamos nossas capacidades e as transformamos em prática. Isso ocorre invariavelmente desse modo porque a matéria nos empurra sua força telúrica ao movimento do imaginário e das mãos. Da impossibilidade de carregar algo podemos imaginar soluções novas e explorar potenciais que antes desconhecíamos e assim, criar e recriar novas imagens sobre nós mesmos e o mundo.

As soluções imaginativas, as forças mobilizadas, serão ainda e sempre diferentes em cada ser, mesmo que expostos ao mesmo acontecimento. Na Cabana houve o dia de carregar um tronco de bananeira. Algo completamente impensado e estranho passa a ser realidade material a partir da proposta do educador. E ao contato com a materialidade do tronco, com seu peso, textura, humidade etc. a tarefa de dar conta de carrega-lo passa de inviável para improvável, depois para factível e fácil. A partir da força imaginativa que jaz dentro, com o impulso com a contato com a materialidade, novos conceitos se criam e logo são experimentados. Conseguir e não conseguir, poder e não poder, ser capaz e não ser capaz, ter forças ou não ter, utilizar o corpo de tal ou qual forma, são todos conceitos criados a partir da relação mundo-eu e eu-mundo. O papel do educador da Cabana, ou ainda, de todos os educadores, será sempre permitir e estimular uma imaginação capaz, fértil, forte, certeira, reta, eficiente, livre, etc., para dar conta de encontrar os melhores meios de se viver feliz.

“A imaginação pode transformar a própria realidade. É no devaneio que a vontade encontra seu impulso mais profundo, seu verdadeiro motor. Pois é ao imaginar que o ser se liberta das amarras do mundo presente.” (Bachelard – A Terra e os Devaneios da Vontade)

Texto Livre escrito pelo Educador Daniel Almeida a partir da pesquisa documental processual realizada com as crianças matriculadas na Cabana Escola Quintal durante o ano de 2024.