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O trabalho como gesto humano na escola das infâncias

“não me contentarei em ligar essa escola ao trabalho pelo intermédio falacioso das palavras e dos livros. Não repetirei essa traição, mas colocarei efetivamente o trabalho na base de toda a nossa educação.” (Freinet)

O trabalho em nossa sociedade nem sempre é visto ou vivido como algo prazeroso, ou positivo. Em geral os adultos ficam a esperar a sexta feira, o fim do expediente, o fim da louça suja na pia, como me disseram duas menininhas, uma de 4 e outra de 5 anos: “lavar a louça é chato! A gente não gosta!”

Mas enquanto me diziam isso, estavam as duas paradas em frente a pia em que eu lavava a louça. Ficaram lá paradas olhando para minhas mãos, elas não olhavam para mim, olhavam para meu gesto de pegar a esponja, passar no sabão, molhar um pouco na água e esfregar no pote. Elas então me perguntaram: você gosta de lavar a louça? e ficaram surpresas quando eu disse: gosto.

Essa cena e tantas outras que presencio cotidianamente nessa escola que é quintal e casa, me fizeram pensar sobre a importância desse gesto “o gesto do trabalho” em nossas vidas, principalmente no início dela que é quando estamos aprendendo a viver. Alguns até se arriscarão dizendo: mas esse não é papel da escola, o papel da escola é ensinar. Sim, o papel da escola em que a criança passa cerca de 8 a 9 horas por dia é o de ensinar- ensinar a viver. Como diria Freinet “A vida se aprende na vida”.

Busquei a lente de alguns autores para ampliar essas reflexões: Paulo Freire e Celestin Freinet. Dois grandes educadores, os quais defendem uma educação mais humana e popular, ambas voltadas para a valorização do trabalho. Fui tecendo uma trama de possibilidades de interpretação do gesto do trabalho a partir do que via e ouvia das crianças e das falas e reflexões desses dois autores. 

As primeiras reflexões que me coloquei a fazer foram: porque não gostamos (como disseram as menininhas) ou desvalorizamos tanto os gestos dos trabalhos manuais do dia a dia, se são eles que permitem nossa subsistência? Será que essa fala das crianças parte do que elas realmente sentem ou é mera repetição do que elas escutam no seu entorno?  

Encontrei na pesquisa do autor Flávio Boleiz Junior “Freinet e Freire: O processo pedagógico como trabalho humano” (2012) algumas reflexões importantes sobre o trabalho na compreensão de Marx:

“antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a Natureza, um

processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla

seu metabolismo com a Natureza. Ele mesmo se defronta com a matéria

natural como uma força natural. Ele põe em movimento as forças naturais

pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de

apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida. Ao

atuar, por meio desse movimento, sobre a Natureza externa a ele e ao

modificá-la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. (MARX,

1983a, p. 149)” 

Para este autor, com o advento do capitalismo, o homem foi sendo cada vez mais distanciado do resultado do seu trabalho e sendo transformado em apenas executor, que fornece a força de trabalho. Nesse contexto, o homem-trabalhador,  na maioria das vezes, não tem acesso ao resultado final de sua ação. O que torna cada vez mais o trabalho algo degradante e por consequência ruim.

Durante o período em que me dediquei a observar as crianças de 2 a 6 anos na Cabana Escola Quintal, pude perceber o quanto elas são fascinadas pelas coisas que as mãos dos educadores podem fazer, como vimos na cena acima em que as crianças dizem não gostar de lavar a louça, mas o gesto as atrai.

Aqui na Cabana Escola quintal os gestos de subsistência estão espalhados por todo o ambiente e a pergunta que mais ouvimos das crianças é:

O que você está fazendo? 

Em seguida, após a resposta: Posso ajudar? ou – Posso fazer também?

Esses gestos de trabalho tem o potencial de criar vida, são gestos que modificam o entorno em que a criança e o adulto vivem:

“Para os seres humanos, como seres da práxis, transformar o mundo, processo em que se transformam também, significa impregná-lo de sua presença criadora, deixando nele as marcas de seu trabalho.” (FREIRE)

Nas fotos podemos observar os gestos de trabalho que exigem do corpo das crianças uma concentração e presença. Elas se entregam nos gestos, buscam os elementos de que necessitam para executar seus objetivos que, na maioria das vezes, consistem em transformar uma coisa em outra através de suas mãos utilizando técnicas que foram disseminadas no seu cotidiano pelos adultos com os quais convivem.

Nas fotos: 1. Leonardo (3 anos) moendo tijolo para fazer pozinho e depois tinta; 2. Valentim (4 anos) com suas panelinhas na caixa de areia fazendo um jantar juntamente com seus amigos; 3. Helena (5 anos) fazendo um trabalho manual com fios utilizando muito bem a agulha como ferramente.

Se trata de uma atividade prazerosa e ao mesmo educativa para Freinet a criança possui a:

“(…) necessidade de trabalho, isto é, a necessidade orgânica de usar o potencial de vida numa atividade ao mesmo tempo individual e social, que tenha uma finalidade perfeitamente compreendida, de acordo com as possibilidades infantis, e que apresente uma grande amplitude de reações: fadiga – repouso; agitação – calma; emoção – tranquilidade; medo – segurança; risco – vitória. Além disso, é preciso que esse trabalho preserve uma das tendências psíquicas mais urgentes, sobretudo desta idade: o sentimento de potência, o desejo permanente de se superar e aos outros, de conquistar vitórias, pequenas ou grandes, de dominar alguém ou alguma coisa. (FREINET, 1998, p. 189-190, grifos no original)

Iniciam esse processo imitando, repetindo o gesto dos educadores ou das crianças mais velhas, como vemos na foto em que a criança tenta com o rastelo pegar as ameixas que se encontram em cima da árvore. Ou no gesto de descascar pinhão.

Na foto: 1. Mateus (4 anos) utilizando o rastelo para pegar ameixas no alto da árvore; 2. Educadora Daniele descascando pinhão e Elis (5 anos) fazendo o mesmo movimento de descascar.

Eles imitam até incorporarem o gesto como sendo deles e então repetem, repetem, repetem, até o dominarem a ponto de poderem modificá-lo, ou agregá-lo a outras atividades ou materiais. Assim aconteceu com a brincadeira de giz moído, que no início se transformava em pozinho colorido, quando misturado com água – poção colorida; na falta do giz moíam tijolos para o mesmo fim e depois encontraram cúrcumas que moídas (socadas) se transformaram em tinta amarela.

Vale dizer que o interesse pela atividade exercida pelo educador é das crianças. Nem sempre os educadores as convidam para participar, elas se direcionam ao local onde aquele fazer, aquele gesto está acontecendo e pedem para ajudar ou participar. Isso torna importante e indispensável a presença deste adulto que preenche o ambiente com gestos que criam vida. Gestos que permitem a assimilação através da observação e que reverberam para o brincar. 

Estes gestos de vida como “varrer, costurar, carregar, lavar, cozinhar, pintar, etc” realizados pelos educadores permitem que as crianças possam assimilá-los enriquecendo seus repertórios de brincadeiras e também suas habilidades manuais em que podemos perceber a destreza das mãos, a postura do corpo, a coordenação  visomotora,  e uma maior criatividade para executar aquilo que desejam. Isso foi observado com frequência nos momentos em que foram ofertadas caixas de papelão e fita crepe: algumas crianças sabiam exatamente como precisavam unir as partes para transformar o papelão no brinquedo que desejavam. 

Pude observar que independente da idade a busca pelo gesto das mãos que rasgam, quebram, movem, que transformam estava sempre presente. Conforme a criança vai crescendo, se desenvolvendo suas mãos vão se transformando possibilitando que as pequenas mãozinhas nas palavras de Paulo Freire, “se vão fazendo, cada vez mais, mãos humanas, que trabalhem e transformem o mundo” (FREIRE, 2002)

Freire e Freinet são grandes mestres que tiveram a coragem de colocar o trabalho no centro de suas pedagogias considerando esta ação como condição básica e fundamental de toda a vida humana. Ao observar as crianças brincando, criando e recriando a partir de suas mãos pude observar e validar a importância desse gesto para a educação das infâncias e o quanto nós educadores precisamos estar atentos aos nossos gestos de trabalho, pois é a partir deles que as crianças poderão ir construindo os seus próprios gestos que vão transformando a si mesmos e ao mundo ao seu redor.

Referenciais utilizados:

FREINET, Élise. O itinerário de Célestin Freinet: A livre expressão na Pedagogia Freinet. São Paulo: Francisco Alves 1979.

FREINET, Élise. O nascimento de uma pedagogia popular: os métodos Freinet. Lisboa (Portugal): Estampa, 1978.

FREINET, Célestin. A educação do Trabalho. São Paulo: Matins Fontes, 1998.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 32.ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

BOLEIZ JUNIOR, Flávio. Freinet e Freire: o processo pedagógico como trabalho humano. 2012.