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Pensando na linguagem da infância – o que escuto das crianças na escola.

As coisas todas inominadas.

Água não era ainda a palavra água.

Pedra não era ainda a palavra pedra.

E tal.

As palavras eram livres de gramáticas e

podiam ficar em qualquer posição.

Por forma que o menino podia inaugurar.

Podia dar às pedras costumes de flor.

Podia dar ao canto formato de sol.

E, se quisesse caber em uma abelha,

era só abrir a palavra abelha e entrar dentro

dela.

Como se fosse infância da língua.

(BARROS, Manoel de, 2015, p. 107)¹

2024 é um ano de números pares. E eu não me dou bem com números, sobretudo os ímpares, que me dão a sensação de assimetria. Eu nasci num dia 6 de novembro, e isso sempre me fez pensar que era melhor escolher o par entre o par ou ímpar na brincadeira decisiva. Num outro dia 6 de novembro de muito antes, nasceu Françoise Dolto, uma senhora muito cheia de questões e saberes, que Karlla me apresentou em 2021, ano ímpar. E o encanto estava lançado. Ímpar, par, ímpar, par. Os anos se passaram, três, ímpares. Não era meu plano escrever assim em primeira pessoa, mas vou seguir um conselho de Dolto:

“E é isto que é importante na linguagem que usamos com o bebê, por menor que seja, assim como com as crianças maiores: é de sermos verdadeiros no que diz respeito ao que sentimos, qualquer que seja essa verdade – o verdadeiro, e não o imaginário.

(DOLTO, Françoise, 1987, p.18)²

Como hoje estou falando com pessoas que já foram bebês, e que foram crianças pequenas, e depois maiores, maiores ainda como adolescentes, até chegarem à idade adulta, carregando consigo marcas de todo esse percurso de crescimento e todas as suas idades, decidi dizer a partir de mim mesma e do que me tem sido verdade no tempo de agora: eu gosto de falar palavras, de ouvir palavras, de ler palavras, de pensar palavras. E aqui neste jardim de infância, eu posso colher na memória as construções de linguagem feitas pelas crianças com quem divido o cotidiano, e poder dedicar minha atenção ao que elas têm a dizer, me abriu todo um novo horizonte de curiosidade e investigação.

Antes, eu tinha os olhos feito caçadores de cenas em parceria com as mãos possuidoras de dispositivos fotográficos, era o olho zum e os dedos clic, criando uma coleção de imagens. Muito boas eram essas missões de registrar o que os olhos vêem, mas os pobrezinhos são míopes, então são pesados de óculos, precisavam dividir a tarefa de olhar a vida. Decidiram comunicar aos ouvidos que eles teriam de trabalhar mais atentamente já que a dona do corpo preza tanto por justiça. Os ouvidos logo se colocaram em ação, e a surpresa foi que era possível encontrar assim muitos tesouros também. Uma nova união surgia, agora os ouvidos contavam com as mãos para que os dedos fossem os digitadores ou escrevinhantes de palavras para que elas não caíssem facilmente naquele buraco estranho que é o esquecimento. No caso, orelha zip e dedos zap zap.

Nessas ouvinças e escrevinhanças, tenho anotado frases valiosas, que com certeza poderiam ser moeda de algum reino de historinha. Como na mesa do lanche, naquele dia em que o menino olha para mim e diz em meio a um sorriso, ao apontar orgulhoso para um pãozinho de batata doce, o pão de beijo: sabia que isso foi fabricado pelo eu? E aí, eu, a adulta tradutora do mundo, perguntei assim: então foi você quem fez? E ele responde: é, foi feito pelo mim. Tivemos que parar a conversa para mastigar o pão feito pelo mim dele porque estava muito bom. E entre pensamentos de psicanálise e poesia, não podia deixar de considerar que a língua da infância é singela e preciosa, e que acompanhar esses pequenos seres humanos desbravando as possibilidades da linguagem é realmente enriquecedor.

Comecei com Manoel de Barros porque o que ele diz Podia dar às pedras costumes de flor, me faz pensar que para as crianças, a pedra pode ser tudo menos pedra. Os elementos, os objetos, em suas mãos, entram em alquimia, metamorfose. Pedra não era ainda a palavra pedra. A narração da vida não respeita as regras da gramática e nem a nomenclatura de tudo. O sim é o não, o mundo é troca-troca, o mundo é ao contrário. Palavras nojentas tem gostosura, o adorável pode ser eca. A vida é dita o tempo todo.

A Dolto nos diz que para as crianças, tudo é linguagem significativa, tudo o que se passa à sua volta e que ela observa. Ela reflete sobre essas coisas (DOLTO, Françoise, 1987, p.10)³, ela se constroi a partir dos significados que encontra em seu caminho. Deve ser por isso que o pequeno ser passa falando sozinho assim: é, é chatão, signifitivo de pavão. Outro diz que ficou risando de tanto que foi engraçado algo que viveu. Os filhos bonecos recebem nomes como chinês, azul e preto. As manchas da lua são meteoros, dá pra farejar onças e monstros, ser cachorro, leão, gato, ou um pinguim levadiço. E isso é só uma lasquinha de tudo que escuto entre os dias que se passam.

Em julho, visitei o Museu de Língua Portuguesa e lá fiquei pensando sobre como existimos e nos unimos a partir da linguagem, que ser falante ou praticamente de uma língua torna possível que façamos parte de uma cultura, de uma nação. Nós existimos no olhar e na escuta do outro, queremos ser percebidos. Mas, aí estou indo para longe e por agora, alguém me chama:

Tia Lu, sabia que sou tudo e nada?

Texto Livre escrito pela Educadora Luana Auersvaldt a partir da pesquisa documental processual realizada com as crianças matriculadas na Cabana Escola Quintal durante o ano de 2024.

Referenciais teóricos:

¹ BARROS, Manoel de, 1916-2014.

Meu quintal é maior do que o mundo [recurso eletrônico] / Manoel de Barros ; 1. ed. – Rio de Janeiro : Objetiva, 2015.

² DOLTO, Françoise, 1908-1988.

Tudo é Linguagem / Françoise Dolto; tradução Luciano Machado ;  2 ed. – São Paulo:  Martins Fontes, 2018.

³ DOLTO, Françoise, 1908-1988.

Tudo é Linguagem / Françoise Dolto; tradução Luciano Machado ;  2 ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2018.

2 comentários em “Pensando na linguagem da infância – o que escuto das crianças na escola.”

  1. É de arrepiar a sensibilidade dessa escuta que se faz com olhos, ouvidos e coração. Não há, é verdade, presente maior para uma criança que nasce e cresce e se diverte que alguém que lhe fala com verdade. Parabéns, Luana, por tão preciosa pesquisa e partilha.

  2. Luciane Aparecida Rodrigues da Silva Auersvaldt

    Que texto precioso, me fez chorar, me fez lembrar falas da infância, me fez orgulhosa!
    Filha você tem o dom da escrita, siga em frente!
    Somos seus maiores fãs!!!

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